Alienação virtual

Coisa de um mês atrás, desativei a conta no facebook. Cabe aqui um “finalmente”, pois pensei nisso incontáveis vezes antes de concretizar o feito, por motivos variados. Tempo (mal) gasto à toa, excesso de informação sobre a vida alheia, um ciclo meio redundante de notícias, discussões, fotos de gatinhos (faço mea culpa), uma ansiedade obscura por “likes”, um eterno “scroll” da vida, hipnótico e entediante. Num movimento quase mecânico, eu acabava dedicando qualquer minuto ocioso a esse voyeurismo virtual. Me acostumei a ler manchetes, ao invés de reportagens, e a tirar fotos para o facebook, mais do que pelo registro e pelo prazer lúdico da fotografia impressa. Claro que isso tudo deriva de um mau uso da rede, que eu ia percebendo e reconfigurando. Em todo caso, decidi que precisava me libertar de tanta exposição (minha, dos outros, do mundo superficialmente visto e debatido naquele espaço). O que me interessava ali poderia ser alcançado por outros meios.

O tiro saiu pela culatra quando, nos primeiros dias, acessei compulsivamente minha conta no instagram, que até então só era usada para colocar filtro em fotos (para então postar no facebook). Por que essa necessidade de exposição e essa curiosidade pela vida dos outros, ó céus? As tais curtidas provocavam uma euforia, alguma reação química no cérebro que suscitava um tipo de dependência inconsciente. A percepção dessa urgência por aprovação me deixou perturbada, mergulhada em indagações existenciais. Por questão de honra e desafio pessoal, reduzi gradativamente o uso dessa e qualquer outra rede social.

Esse período de abstinência acabou me fazendo um bem danado. Mais tempo para ler e escrever, maior produtividade no trabalho e uma certa despreocupação. Como se eu absorvesse menos emoção do mundo (de um mundo privado que não me interessa tanto) e isso me deixasse mais leve. Uma alienação social saudável e positiva, durante um tempo.

Por outro lado, a experiência me privou um pouco de acompanhar as novidades e trabalhos de amigos, ver fotos de viagens e de gatos. Fico contando com os outros para me informarem sobre eventos e atividades culturais pela cidade. E sinto alguma falta da zoeira e das tretas da internet, de apurar o olhar antropológico para a convivência virtual, que flutua entre a selvageria e a cordialidade.

Num futuro próximo ou distante, pretendo ressuscitar a conta e fazer melhor uso dela, mais informativo, menos supérfluo. Antes disso, tenho um projeto acadêmico para terminar. Pensei que a monografia seria substancialmente beneficiada por esse período sem facebook. Uma vez eliminada a fonte de procrastinação, sobraria mais tempo e concentração para o projeto. Ingenuidade. O mundo real é muito mais convidativo a distrações.

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