Ghost writing

Há quase dois anos, comecei a escrever textos assinados por outras pessoas. Uma prática corriqueira, como vim a descobrir, que alfinetava meu ego, por assim dizer. Foi logo em minhas primeiras incursões jornalísticas, quando um nome impresso no papel provocava algum alvoroço. Hoje, é o dinheiro na conta que produz essa reação.

De fato, as pessoas que assinam em meu lugar têm o mérito da carreira que construíram, da pauta que propuseram, dos contatos que colecionam. A menos que profissionais da arquitetura estejam interessados em ler crônicas sobre os vinte e tantos anos, não tenho nada a oferecer em termos de conteúdo. Desenvolvi um carinho especial por esses não-escritores – e acredito que eles, por mim. Emprestei a eles minhas palavras e, em troca, tive a oportunidade de escrever matérias bacanas sobre um universo que pouco conhecia e passei a me interessar.

Mas coisas estranhas acontecem quando incorporo outra identidade de escrita.

Em primeiro lugar, me torno absolutamente anônima. É como se toda uma vida de referências e ideologias tivesse que desaparecer, por alguns instantes. Mas elas não vão a lugar algum. O que me leva a escolher ângulos mais próximos da neutralidade, quando se trata de um posicionamento conflitante com o meu. A política nunca é assunto central em meus trabalhos, mas volta e meia surge periférica, num comentário ou piada. Posso ignorá-los sem transgredir barreiras éticas. Em todo caso, o “dono” do texto tem autonomia para fazer qualquer mudança, antes da publicação. Nunca escrevi uma linha que ferisse minhas convicções. Mas já perdi algumas oportunidades de ironizar conservadorismos e afins.

Outra questão é a personalidade da escrita. Ser quatro ou cinco autores numa só publicação é uma tarefa capciosa. Não se trata apenas de não cair em meus próprios vícios. Trata-se de criar novos vícios para cada um de meus heterônimos. Fernando Pessoa sabia do que estou falando. É preciso conhecer cada não-autor em suas singularidades, para então reproduzir sua voz escrita. Isso leva tempo e nem sempre produz os resultados esperados. Um singelo sentimento de vitória se manifesta quando leio um texto meu que eu jamais escreveria.

Por fim, o tal do ego. De vez em quando, lemos um texto tão bacana que pensamos: “poxa, gostaria de ter escrito isso”. No meu caso, acontece de eu escrever textos que eu gostaria de ter escrito. É bom estar feliz com o próprio trabalho e é natural desejar um mínimo de reconhecimento. Me dou então por satisfeita com um único elogio, do sujeito que assinará a matéria. Vida que segue.

Pensando bem, “ghost writer” soa bonito no meu currículo. Eclético, no mínimo. Misterioso. A escritora fantasma. Dava filme, se já não tivesse dado.

 

– Lina Borges

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